Bob Dylan chega aos 80 anos neste dia 24 de maio de 2021 em uma posição rara. Figura fundamental da história contemporânea, sua influência pode ser sentida não só na música, que ele influenciou decisivamente especialmente ao trazer letras de qualidade literária para o mundo pop, mas também em praticamente todas as artes. Nada mal para um cara franzino, nascido em Minnesota, que cantava de um jeito meio anasalado, e que fascina quase que na mesma medida em que afasta muitos ouvintes.

Entrar no universo de Dylan não é fácil, especialmente para quem está chegando agora ou só conhece os seus maiores sucessos. Afinal, são dezenas de discos, tanto oficiais quanto de material de arquivo, para se embrenhar. Ele também é das pessoas mais estudadas do século 20, resultado em uma quantidade assustadora de material para pesquisa - e, no caso dele, ouvir os trabalhos pode ser a parte mais saborosa do processo, mas não pode, nunca, ser a única. Tentar entender esse enigma chamado Bob Dylan é igualmente fascinante e quase mandatório para um verdadeiro fã.

Nesse especial mostramos um pouco desse caminho das pedras, selecionando oito discos que mostram a evolução do artista década a década. Para quem quer começar a conhecê-lo um pouco mais a fundo, este é um bom guia. Para quem já se considera "Dylanófilo" a sugestão é a de simplesmente ouvir estes, e mais outros, LPs do artista. Afinal, não é todo dia que uma lenda chega às oito décadas de vida.


"The Freewheelin' Bob Dylan" - 1962
Bob Dylan

O mito Dylan começa a surgir aqui, com seu segundo disco lançado, vale lembrar, antes da chegada da Beatlemania aos EUA. Ao contrário de sua estreia, onde praticamente só cantou versões do cancioneiro folk, "Freewheelin'..." era composto apenas de material próprio, ainda que ele não tivesse o menor problema em "fazer empréstimos" de outras melodias, esta também uma tradição da música folk, e que, até hoje, ele faz uso. O álbum o transformou em um dos mestres da música de protesto, algo que em pouco tempo o músico iria rechaçar, mas também mostrava outras de suas facetas, entre elas, a romântica e a bem-humorada.

E traz faixas que se tornaram históricas, caso de "Masters Of War", "A Hard Rain's A-Gonna Fall", "Don't Think Twice, It's All Right" e uma das mais canções mais emblemáticas do século 20: "Blowin' In The Wind". Nesse formato voz e violão, Dylan lançaria ainda mais dois discos, sendo que o quarto, "Another Side...", mostrava que ele não iria deixar-se ser definido pela percepção que o público fazia dele.



"Highway 61 Revisted" - 1965
Bob Dylan

Em 1965, Dylan chocou os fãs de música folk, um grupo bastante radical e purista, em suas opiniões, ao subir ao palco com uma guitarra elétrica e uma banda - foi no Festival de Newport, em julho de 1965, três meses depois dele ter lançado "Bringing It All Back Home", o primeiro de uma trilogia iluminada de álbuns, que era dividido em um lado elétrico e outro acústico.

Bob ressurgiria de forma ainda mais visceral no ano seguinte, com "Highway 61 Revisited", lançado apenas cinco meses depois de seu antecessor, que abria com outra canção imortal: "Like A Rolling Stone", presença certa em qualquer lista de melhores canções já escritas, e quase sempre entre os primeiros, senão no primeiro lugar.

As outras oito canções podem não ter mudado o mundo da mesma forma, mas podem ser consideradas igualmente clássicas, vide "Tombstone Blues", "Ballad of a Thin Man", a faixa-título, com pegada blues, e a surrealista "Desolation Row", que fechava o disco em pegada acústica com seus 11 minutos de duração.

Nos meses seguintes, Dylan foi muito vaiado, chegando a ser chamado de "Judas" por ter "traído" a música folk para alcançar o estrelato pop (o álbum ao vivo "Live 1966, The "Royal Albert Hall" Concert" mostra como foi), e lançou outro disco que também está em qualquer lista de melhores já feitos: o duplo "Blonde On Blonde".



"Blood On The Tracks" (1975)
Bob Dylan

Depois do turbilhão dos anos de 1965 e 1966, Dylan relaxou. É um período de discos mais calmos, marcados pela influência da música country e pelo romantismo, e cheios de grandes momentos, mesmo que a discografia desse período não seja tão celebrada.

Dylan ressurgiu com força total em 1975, com o desesperador "Blood On The Tracks", que costuma ser bastante citado, entre fãs e jornalistas, como seu LP favorito do compositor. Ainda que ele tenha tentado disfarçar, dizendo que as canções na verdade foram baseadas em contos de Chekhov, a verdade é que esse é mesmo um disco de divórcio, e um dos mais intensos já feitos, a ponto dele ter basicamente criado um gênero em si.

A separação definitiva de Dylan e Sara se daria apenas em 1977. Nesse tempo, ele ainda lançaria outro disco de grande força, "Desire" (1976), e também embarcaria em uma de suas turnês mais fascinantes, a "Rolling Thunder Revue", que, recentemente, foi abordada em um documentário (que não deve ser visto acreditando-se em tudo que ali aparece) dirigido por Martin Scorsese ("Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese" disponível na Netflix).



"Oh Mercy" - 1989
Bob Dylan

Os anos 80 foram, para dizer o mínimo, complicados para Dylan. O cantor iniciou a década com dois discos, de um total de três, de sua chamada fase religiosa, quando se converteu ao cristianismo (em uma versão bem fundamentalista). Hoje em dia, essa fase até passou por uma reavaliação, mas, na época, ela só causou espanto. "Infidels", de 83, melhorou um pouco a situação das coisas, mas se mostrou um disco irregular, que poderia ter sido muito acima da média se ele tivesse incluído alguns outtakes que, apenas anos depois, vira a luz do dia, em particular a brilhante "Blind Willie McTell".

Quando a década parecia praticamente perdida, "Oh Mercy" chegou às lojas e mostrou que ele ainda tinha muito a oferecer. Com produção de Daniel Lanois (U2) e seu melhor conjunto de canções em mais de uma década, o trabalho mostrou que Dylan estava pronto, assim como outros veteranos, como Neil young, Lou Reed e Paul McCartney, que também lançaram LPs de grande força em 1989, para mais uma década. Ou assim parecia, como já veremos.



"Time Out Of Mind" - 1996
Bob Dylan

A boa fase que "Oh Mercy" prenunciou não se cumpriu, o disco seguinte, "Under The Rec Sky", foi massacrado pela crítica e ignorado pelo público. Dylan se retraiu lançando dois bons discos com covers de folk, acompanhado apenas com o seu violão, em uma clara volta às suas origens. Felizmente, ele logo voltou a olhar para frente, não sem antes assustar a todos com um sério problema cardíaco que, por pouco, não lhe custou a vida.

O seu retorno acabou sendo triunfal. "Time Out Of Mind", novamente produzido por Daniel Lanois, é não só um disco que pode ser comparado favoravelmente com qualquer um de sua trajetória como serve de exemplo de como um LP feito por um "veterano" pode, e deve, soar. O álbum tem um bom número de canções que, hoje, já são quase standards, comparáveis aos seus hits mais onipresentes. "Make You Feel My Love" é uma delas.

Os anos 90 também foram marcados pelo início dos lançamentos das "Bootleg Series". Atualmente no 15° volume, esses lançamentos mostram um rota alternativa para o fã, trazendo à tona músicas que ficaram de fora dos discos oficiais, demos e versões alternativas e material ao vivo de todos os momentos de sua carreira.



"Love And Theft" - 2001
Bob Dylan

Esse trabalho marca o início de um padrão nos discos do compositor, que passam a sair com tempos cada vez mais espaçados entre si. Dylan, sob o codinome Jack Frost, assume a produção dos álbuns e, em suas composições, passa a revisitar o blues, a música country, e o jazz dos anos 40 de maneira reverente, mas nunca engessada. "Love And Theft", que saiu no pior dia possível na história recente norte-americana: o 11 de setembro de 2001, é enxergado como um dos grandes momentos de sua carreira - na recente lista da Rolling Stone com os melhores álbuns da história, esse é o único disco dele da safra "mais recente" a marcar presença.



"Tempest" - 2012
Bob Dylan

Não dá para dizer que Dylan ficou quieto nos anos 10. Vários volumes das Bootleg Series chegaram ao mercado e ele seguiu com a sua rotina massacrante de shows - desde 1988 ele está naquela que, informalmente, é chamada de "A Turnê Sem Fim". Mas ele só soltou um disco de inéditas durante toda a década.

"Tempest" é um bom trabalho dele dando sequência à boa fase que se iniciou nos anos 90, ainda que seja daquele tipo que agrada mais aos convertidos do que aos céticos.

Depois daqui, o compositor Dylan deu espaço ao intérprete - algo curioso para alguém que sempre foi muito chamado de um "não-cantor" - lançando três álbuns, sendo um triplo, apenas com versões para clássicos do cancioneiro norte-americano, a maioria deles gravado por Frank Sinatra. Desses, o primeiro deles, "Shadown In The Night" (2015), é o mais interessante.



"Rough And Rowdy Ways" - 2020
Bob Dylan

Bob Dylan chegou naquele patamar em que não precisa mais provar nada pra ninguém. Até o Nobel de Literatura, o primeiro dado a um autor de canções populares, ele ganhou. Daí que os fãs já estavam aceitando viver em um mundo sem um novo trabalho de inéditas. Se, à beira dos 80 anos, ele queria apenas cantar músicas feitas durante a sua infância, ou quando ele ainda não tinha nascido, que fosse.

Até que em março do ano passado, e sem aviso, "Murder Most Foul", uma impressionante canção discursiva de 17 minutos, onde ele parecia tentar fazer, a partir do assassinato de Kennedy, um balanço da segunda metade do século 20, foi postada na internet apontando que, finalmente, um novo disco estava chegando.

"Rough And Rowdy Ways" foi lançado meses depois e não desapontou. O disco foi, merecidamente, um sucesso de crítica e público, e mostrou que Dylan conseguiu se manter em forma e relevante em sua sétima década discográfica.

A expectativa é a de saber o que teremos pela frente. Ele vendeu, há pouco, os direitos autorais de sua músicas por, diz-se, 300 milhões de dólares. A pandemia ainda o impede de voltar à estrada, e não se sabe se ele ainda pretende, com idade tão avançada, se entregar novamente à rotina de mais de 70 shows anuais. O fato é que ele já deu muito para a cultura contemporânea e, se ainda tiver algo a oferecer, e quiser dividi-la, sorte a nossa.