Arranchado

José Claudio Machado


Nessa colméia povoeira
onde fiz arranchamento
amarro fletes de sonhos
nos palanques de cimento
vou bebendo nostalgias
de sangua, pitanga e vento
/sesmarias de saudade
não cabem num apartamento/

quando a lua se debruça
no arranha-céu dos viveiros
onde arranchei minha alma
no meu exílio povoeiro
/coiceia dentro do peito
um coração caborteiro
me sinto um pássaro preso
na angústia do cativeiro/

um luzeiro imaginário
na quincha de um céu nublado
vai apartando o rebanho
de fumaça nos telhados
/e uma saudade de noivo
de campo e berro de gado/

vou embora pra querência
pra me arranchar no meu chão
amanhã eu ponho anúncio
nos grandes classificados
/vende-se um apartamento
no coração da cidade
a preço de ocasião
por motivo de saudade/

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