Entrevista

18/04/2006

"Vamos em frente até o dia em que a mídia musical será por telepatia...", João Barone.

Os Paralamas do Sucesso letras
Foto: Mauricio Valladares

Vaga-lume - 18 de abril de 2006

Esse é um ano de muitas comemorações para os Paralamas do Sucesso. O grupo está indo para vinte e cinco anos de carreira, Selvagem?, o disco marco de 1986, está fazendo vinte anos e ainda temos o lançamento de um DVD “ao vivo, mas não tão ao vivo assim” (calma que você já vai entender).

Nós aqui no Vaga-lume não poderíamos deixar tanta coisa assim passar em branco e é por isso fomos atrás do pessoal da banda. Demorou um pouquinho mas valeu a pena! João Barone foi paciente o bastante para nos contar coisas divertidas, históricas e curiosas dessas duas décadas e meia dos Paralamas.

Dos primeiros tempos, quando ele dividia a cama de hotel com o Bi Ribeiro ao auge do sucesso dos anos 80 e muito mais. São essas histórias essas que ficamos felizes em repartir com vocês. Divirtam-se.

Vamos começar pelo último cd. Como foi a fase de composição e pré-produção do disco? As músicas demoraram para nascer?


João Barone: Nem tanto. Elas foram maturando na medida em que fomos tocando, num processo bem natural. A gente fez um "teste do dia seguinte" com as composições pra ver se elas ficaram boas ou não.



Imagino que esse disco deva ter sido um dos mais difíceis para serem feitos em toda a carreira de vocês (por ter sido o primeiro que o Herbert compôs do acidente). Foi assim mesmo? Você e o Bi estavam com ele nessa fase de composição?


Os Paralamas do Sucesso letras
Herbert Vianna - Foto: Carina Zaratin

Barone: Não foi difícil, foi intenso. Música pode ser uma coisa etérea, surge do nada. Claro, precisa da inspiração, mas é como se não existisse nada e de repente surge uma idéia e ela se concretiza. Certamente esse processo foi mais coletivo desta vez, pois ajudamos o Herbert a selecionar as canções, arranjá-las e chegar na forma final delas.



Os shows da nova turnê estão sendo bastante elogiados, o que mais falam é que a carga emocional, que era grande e esperada, dos shows da turnê anterior, aos poucos está se dissipando e que o clima de festa que sempre marcou as apresentações voltaram. Você concorda com essa afirmação?


Barone: Sim, acho que estamos bem afiados no palco e com um novo repertório, com bastante música nova entremeada aos sucessos antigos... Mas o Herbert continua surpreendendo a platéia. Sentimos que é sempre emocionante para o público poder vê-lo em ação.



E essa idéia de DVD sem platéia? Baixou o Pink Floyd em vocês? (risos). Fale pra gente sobre o projeto, os convidados e quando ele estará ans lojas.


Barone: Foi uma idéia que o Bi teve de registrar um ensaio caprichado, com a gente tocando num lugar que privilegiasse a banda em ação, a filmagem e a gravação. Se houvesse platéia, a vibração seria outra e a gente queria tentar algo diferente, pois acabamos de fazer o dvd "Uns Dias Ao Vivo". Assim, deixamos que as câmeras interferissem livremente durante a performance, conseguindo efeitos e ângulos muito legais. Quanto aos convidados, foram os mesmos que participaram do CD: Nando Reis, Andreas Kisser e Marcelinho da Lua. Como um bônus, gravamos a faixa que o Manu Chao participou, no único dia que ele pode vir ao Rio, no estúdio Nas Nuvens.



Queria agora voltar no tempo, para o primeiro show que vi na vida. Estamos em 1984 e os Paralamas abriam um show do Herva Doce numa boate na Ilha Porchat ás 5 da tarde numa "matinê para a criançada". Você se recorda desse show? Imagino que no começo da carreira esse tipo de roubada devia rolar sempre (risos).


Divulgação
Os Paralamas do Sucesso letras
João Barone

Barone: Putz, cê tá velho, cara! Não foi muito roubada. O mais engraçado foi o hotel, que tinha só cama de casal redonda, na época em que eu dividia quartos com o Bi... Imagina...



Logo depois vocês estouraram com "O passo do Lui" e o show no Rock in Rio. Qual foi a sensação naquele momento de ver que as coisas iriam realmente dar certo?


Barone: Bem, a gente sempre arriscou muito nessa época. Se não fosse para fazer o que a gente queria, voltaríamos pra universidade. Um tanto frustrados, mas voltaríamos. Aí, as coisas foram se descortinando na nossa frente e chegamos onde estamos hoje...



Para o pessoal mais novo "Selvagem?"talvez não seja visto como o disco corajoso que foi na época de seu lançamento. Me lembro que na época o disco dividiu opiniões até ser aclamado anos depois como um dos mais importantes não só do nosso rock, como da MPB. Essa ³radicalização² foi premeditada? Vocês se reuniram e decidiram que era hora de mudar o som, e, logo, a percepção das pessoas à respeito da banda?


Barone: De certa forma, sim. Em grande parte, foi culpa do Herbert. Ele sempre foi muito visionário e ao mesmo tempo, instável quanto ao risco de ficar repetindo receitas. Selvagem foi feito para ser diferente do Passo do Lui, tentar ir além, sem repetir fórmulas.



Bora- Bora levou a cabo as pesquisas de Selvagem? Foi nessa época que vocês tocaram com o Olodum na Bahia (num concerto que foi eleito recentemente um dos melhores já realizados no Brasil). Fale pra gente sobre esse show e essa troca de figurinhas com artistas fora do eixo pop/rock.


Os Paralamas do Sucesso letras
Bi Ribeiro - Foto: Carina Zaratin

Barone: Fomos dando linha para essa idéia de fazer diferente. Bora Bora foi um divisor de águas também importante, primeiro álbum em que nos produzimos. Depois dele, acho que amadurecemos e repetimos algumas coisas, mas com uma certa sabedoria e sabendo dar roupagens diferentes para a nossa música. Os shows com o Olodum em Salvador eram uma catarse coletiva. Geniais. Depis deles, teve o Jerônimo, do "Eu Sou Negão", de quem gravamos "Jubiabá", no Big Bang. Batemos bola com o Carlinhos Brown antes dele ser o ícone pop de hoje, e por aí vai...



O início dos anos 90 foram complicados não só para vocês, como para os demais colegas de geração. A crítica passou a pegar mais pesado, o mercado em recessão fez as vendas caírem e um clima de incerteza pairava no ar. Como foi passar por isso tudo estando no olho do furacão? E como você vê hoje em dia o álbum "Os Grãos"?


Barone: Sobrevivemos aos 90... Tempos difíceis. Os Grãos é um trabalho que desperta sentimentos ambíguos para mim. Acho um disco com uma certa carga sombria. A melhor coisa dele pra mim foi "Trac Trac", do Fito Paez. Estávamos com uma certa tensão interna, o Herbert cobrava muito da gente, no sentido de contribuir mais para a banda. Ele estava muito "sargento" nessa época. Quem era o compositor a cargo da banda era ele. Sempre foi. Quando ele passou a entender, assumir e ficar mais tranqüilo com isso, anos depois, com o Nove Luas, as coisas ficaram bem melhores. Os Grãos agrada muita gente mesmo depois de tanto tempo. Muitos dizem que na hora não entenderam, mas agora escutam o disco com outra leitura...



Logo depois o disco Severino foi lançado e no geral incompreendido por aqui. Já na Argentina o disco agradou em cheio. Muito se falou na época que vocês estavam até pensando em se concentrar mais no mercado latino que no interno. Isso chegou mesmo a ser cogitado? Aliás fale dessa relação de amor que os latinos, e os portenhos em particular, nutrem por vocês.


Barone: Severino foi uma coisa incrível, bateu fraco aqui e estourou na América Latina. Realmente, durante os anos de 94, 95 e 96, fomos os reis" nessa área. A melhor banda argentina de música brasileira, diziam os jornais. Mais uma vez, tudo culpa do Herbert, que apostou no intercâmbio entre alguns artistas locais, aprendeu a falar castelhano
como os gringos e, acima de tudo, se inspirou muito com os mestres Charly e Fito.



Depois de um disco ao vivo que os trouxe de volta às paradas. Vocês lançaram Nove Luas, o disco mais simples e pop de vocês em muitos anos. Chegou um momento em que bateu a vontade de ser mais simples mesmo? Ou de novo o lance foi mais intuitivo?


Os Paralamas do Sucesso letras
Foto: Mauricio Valladares

Barone: Foi uma certa "volta às raízes", brincar um pouco com as coisas que são mais standards e deixamos de lado durante um tempo por patrulhamento interno. O Herbert às vezes queria redescobrir a
pólvora. Mas essa atitude dele foi sempre muito importante para a banda.



O fim dos 90 foi marcado por duas mortes que com certeza mexeu com vocês. Como era a relação de vocês com Renato Russo e Chico Science? Que tipo de lembrança esses nomes trazem `a sua mente?


Barone: Para nós, o Renato não era mais aquele cara instigante e contundente dos idos de Brasília e dos primeiros álbuns da Legião, mesmo antes daqueles discos solo dele. Ele era uma espécie de "médico e monstro", parecia viver uma dúvida entre ser um ídolo das multidões e as responsabilidades que isso acarreta. Optou por se amaciar, falar de amor, vamos dar as mãos... Era um grande ídolo pop e não gostava de aceitar isso. Foi uma perda muito precoce. Já o Chico, foi um grande inspirador de idéias e conceitos.



"Longo Caminho" foi um disco de volta às raízes, com vocês tocando apenas como trio, como há tempos não se via. Esse plano já estava idealizado antes do acidente sofrido pelo Herbert? Como você se sente em relação a esse trabalho?


Barone: Foi um belo retorno. Um tanto soturno, mas ajudou a retomada do nosso caminho. Representa a vontade de ir em frente..



*Aqui no vagalume, entre as canções mais buscadas de vocês pelos nossos usuários estavam: "Aonde quer que eu vá", "Cuide bem do seu amor" e, "Meu Erro". O que você pode contar de legal sobre essas canções? Seja sobre a composição, gravação ou do significado delas para a banda.


Os Paralamas do Sucesso letras
Foto: Mauricio Valladares

Barone: "Aonde Quer que Eu Vá" o Herbert escreveu em homenagem ao labrador dele que morreu... Era a música que estava tocando no rádio na época do acidente e a gente não gostava de tocar nos shows do retorno. Mas agora, tocamos ela no bis. "Cuide bem" é uma baladinha clássica, uma espécie de "Me Liga II, A Missão". "Meu Erro" tem um segundo nome: "Esta Não Pode Faltar No Show".



Hoje os Paralamas já são vistos como banda clássica e quase intocável. O que existe de bom, e de ruim, nisso? Você consegue vislumbrar o futuro seu e da banda? E você acha mais fácil ou difícil sobreviver como músico nesse mundo de novas tecnologias e formas de se ouvir música?


Barone: Olha não tem essa de clássica, intocável. A gente tem que sair na rua, matar um leão todo dia. Responder uma entrevista de 200 perguntas que nem a sua (putz! mata o velho!), coisas assim. Enquanto a gente se sentir bem fazendo o que a gente faz, vamos continuar. O Herbert disse que estamos abrindo um novo ciclo de 20 anos de trabalho... Vamos em frente até o dia em que a mídia musical será por telepatia...






Comentários

É preciso estar logado para deixar um comentário

Última atualização: 30/05/2012 05:22:33
  • Nenhum comentário foi votado ainda como melhor.
    Clique na aba acima para ver os últimos comentários e poder votar em um.

Publicidade

Enquete

Ranking

Top 100 Artistas |Top 100 Letras

Artistas Relacionados

Veja mais artistas relacionados com Os Paralamas do Sucesso

Publicidade

NOTÍCIAS

Os Paralamas do Sucesso » MAIS LETRAS

As letras em destaque: Tendo A Lua | Aonde Quer Que Eu Vá | Meu Erro | Lanterna Dos Afogados | Cuide Bem do Seu Amor | Seguindo Estrelas | Ela Disse Adeus | + Os Paralamas do Sucesso

  1. 2 A
  2. 220 Desencapado
  3. A Dama E O Vagabundo
  4. A Dureza Concreta
  5. A Lhe Esperar
  6. A Mais
  7. A Nova Cruz
  8. A Novidade
  9. A Outra Rota
  10. A Palavra Certa
  11. A Primeira Neve
  12. Ah, Maria
  13. Ai Quem Me Dera A Mim
  14. Alagados
  15. Amor Em Vão
  16. Ao Acaso
  17. Aonde Quer Que Eu Vá
  18. Aposte Em Mim
  19. Assaltaram a Gramática
  20. Bang Bang
  21. Bora Bora
  22. Brasil Afora
  23. Brasília 5:31
  24. Bundalelê
  25. Busca Vida
  26. Cachorro Na Feira
  27. Cagaço
  28. Cai Água, Cai Barraco
  29. Caleidoscópio
  30. Canção Pra Quando Você Voltar
  31. Cantor de Mambo
  32. Capitão de Industria
  33. Caroço da Cabeça
  34. Carro Velho
  35. Charles Anjo 45
  36. Cinema Mudo
  37. Cuide Bem do Seu Amor
  38. Dainos
  39. De música ligeira
  40. De Perto
  41. Depois da Queda, O Coice
  42. Deus Lhe Pague
  43. Dois Elefantes
  44. Don't Give Me That
  45. Dos Margaritas
  46. Dos Margaritas (español)
  47. Dos Restos
  48. El Amor (el Amor Despues Del Amor)
  49. El Vampiro Bajo El Sol
  50. Ela Disse Adeus
  1. Ella Dice Adiós
  2. Encruzilhada
  3. Esqueça o Que Te Disseram Sobre o Amor
  4. Esta Tarde
  5. Eu Confesso
  6. Eu Não Sei Nada
  7. Feira Moderna
  8. Fingido
  9. Flores E Espinhos
  10. Flores No Deserto
  11. Foi O Mordomo
  12. Fora de Lugar - Part. Especial: Andréas Kisser
  13. Fui Eu
  14. Gafas (Óculos)
  15. Hinchley Pond
  16. Hoje
  17. Hoje Canções
  18. I Feel Good / Sossego
  19. Impressão
  20. In Between Days
  21. Ingenuidade Perdida
  22. Inundados (Alagados)
  23. Jubiabá
  24. La Bella Luna
  25. Lá Em Algum Lugar
  26. La Estación
  27. Lanterna Dos Afogados
  28. Lição de Astronomia
  29. Life During Wartime
  30. Linterna de Los Afiebrados
  31. Longo Caminho
  32. Lourinha Bombril
  33. Luca
  34. Luís Inácio (300 Picaretas)
  35. Mandala - Uma Brasileira
  36. Manguetown
  37. Marujo Dub
  38. Marvin
  39. Me liga
  40. Melô do Marinheiro
  41. Menino E Menina
  42. Mensagem de Amor
  43. Meu Erro
  44. Meu Sonho
  45. Mobral
  46. Mormaço
  47. Mr. Scarecrow
  48. Músico
  49. Na Nossa Casa
  50. Na Pista
  1. Não Adianta
  2. Navegar Impreciso
  3. Nebulosa do Amor
  4. O Amor Dorme
  5. O Amor Não Sabe Esperar
  6. O Beco
  7. O Calibre
  8. O Caminho Pisado
  9. O Fundo do Coração
  10. O Homem
  11. O Muro
  12. O Palhaço
  13. O Passo do Lui
  14. O Que Eu Não Disse
  15. O Retirante Harry-Dean
  16. O Rio Severino
  17. O Rouxinol E A Rosa
  18. O trem da juventude
  19. Óculos
  20. Os Grãos
  21. Outra Beleza
  22. Pais Tropical
  23. Partir Andar
  24. Partir, Andar
  25. Passo Lento
  26. Patrulha Noturna
  27. Perplexo
  28. Pétalas
  29. Pólvora
  30. Ponto de Vista
  31. Por Sempre Andar
  32. Por Siete Vidas
  33. Posso Até Dizer Que Sim
  34. Qualquer Palavra Serve
  35. Quanto Ao Tempo
  36. Quase Um Segundo
  37. Que País É Esse
  38. Química
  39. Rabicho do Cachorro Rabugento
  40. Requiém do Pequeno
  41. Rio 92
  42. Rio Severino
  43. Romance Ideal
  44. Round And Round
  45. Running On The Spot
  46. Sábado
  47. Saber Amar
  48. Sanfona
  49. Santorini Blues
  50. Scream Poetry
  1. Se Você Me Quer
  2. Seguindo Estrelas
  3. Seja Você
  4. Selvagem
  5. Sem Mais Adeus
  6. Sempre Te Quis
  7. Será Que Vai Chover?
  8. Shopstake ( Instrumental )
  9. Sincero Breu
  10. Ska
  11. Só Pra Te Mostrar
  12. Soldado da Paz
  13. Soledad Cidadão
  14. Solidariedade, Não!
  15. Speed Racer
  16. Tão Bela
  17. Taubaté Ou Santos
  18. Teerã
  19. Teerã Dub
  20. Tempero Zen
  21. Tempo Perdido
  22. Tendo A Lua
  23. The Scientist Writes A Letter
  24. There's A Party
  25. Track-Track
  26. Track-Track (spanish)
  27. Três
  28. Tribunal de Bar
  29. Trinta Anos
  30. Um A Um
  31. Um Amor, Um Lugar
  32. Um Dia Em Provença
  33. Um Pequeno Imprevisto
  34. Um Truque
  35. Uma Brasileira
  36. Une Chanson Triste
  37. Uns Dias
  38. Vai Valer
  39. Vamo batê lata
  40. Vamos Viver
  41. Varal
  42. Viernes 3 Am
  43. Vital e Sua Moto
  44. Você
  45. Volúpia
  46. Vovó Ondina é Gente Fina
  47. Vulcão Dub
  48. Vulcão Dub/Fui Eu

Não encontrou? Adicione novas letras e traduções

É permitida somente a visualização no site das letras de músicas encontradas aqui, vedada sua reprodução através de quaisquer outros meios (Lei 9610/98).
Todas as letras de músicas são propriedade dos seus respectivos autores e divulgadas somente para fins educacionais.
All lyrics are property and copyright of their owners. All lyrics are provided for educational purposes only.