Artista
Fernanda Takai
Entrevista
Ano passado, o produtor Nelson Motta sugeriu que Fernanda Takai gravasse um álbum com canções imortalizadas na voz deNara Leão. A cantora topou, mas não fez um disco fossilizado, daqueles em que simplesmente copia os arranjos e as interpretações de 30 ou 40 anos atrás. Ao lado de seu marido e parceiro de Pato Fu John Ulhoa, Fernanda brincou com as canções, modernizando algumas e dando um toque pessoal em todas.
O trabalho foi um sucesso de público e crítica que rendeu convites para shows que nem estavam planejados. O resultado dessas apresentações está saindo em um DVD que merece ser visto (a versão em cd tem menos músicas). Além das músicas de Nara, Takai incluiu no repertório covers de, entre outros, Duran Duran, Eurythmics e Michael Jackson e msotrou ser uma das grandes cantoras que o Brasil possui atualmente.
Para falar sobre esse projeto e sobre o futuro do Pato Fu falamos novamente com Fernanda Takai.
Esse DVD marca o fim de uma fase ou os shows com esse repertório vão continuar?
Acho que gravei as músicas mais significativas pra ela e pra mim. Tinha duas que eu gostaria de ter gravado: Meu Cantar e O Divã. Mas no fim elas não fazem tanta falta assim. O universo dela ficou bem mapeado. Continuo a ser fã e é claro que daqui pra frente a minha história como cantora solo vai estar relacionada à Nara de alguma forma.
Tem alguma coisa que você aprendeu ao mergulhar no universo da Nara que acha que vai levar pra sua vida?
Esse trabalho só reafirmou minhas suspeitas de que ela além de ser uma intérprete inteligente, era uma pessoa muito bacana. Encontrei vários amigos artistas, jornalistas, fãs dela que me disseram que ela era especial. Fiquei feliz em saber como era querida. Espero que ao fim da minha carreira eu tenha deixado uma discografia tão boa...
E as outras músicas do show? Como elas foram escolhidas?
Escolhi canções que gosto desde sempre. Músicas que ouço e canto em casa. Elas vêm de lados diferentes, eu sou assim mesmo: gosto de coisas de várias épocas e lugares diversos do mundo.
Por motivos óbvios a que está mais chamando mais a atenção é a regravação de Ben. Queria saber da sua relação com essa música e com o trabalho do Michael Jackson em geral.
O Pato Fu sempre se declarou fã do Michael Jackson e dos Jackson 5. Tem uma canção nossa Uh Uh Uh La La La Ié Ié, que tem clipe do Laerte que é puro Michael Jackson começo dos anos 70. Eu sou fã genuína dele, acho que sua partida equivale a perda de um Elvis Presley ou John Lennon. Foi uma infeliz coincidência ele ter morrido e a música estar no show. Era uma lembrança em vida.
E Sinhá Pureza do Pinduca, você já conhecia ela desde criança? Já que no Norte ele é lenda há tempos né?
Conheci essa música na voz da Eliana Pittman quando morei na Bahia por seis anos. Também vem do tempo de criança. Acho que ela representa como poucas a alegria da composição popular brasileira. É algo simples, mas ao mesmo tempo cheio de informações melódicas, temáticas.
A ideia agora é a de dividir seu espaço entre a carreira solo e o Pato Fu?
Desde que lancei meu disco em dezembro de 2007, venho dividindo meu tempo entre as duas coisas. Não sei quando será um próximo lançamento solo, como disse, minha turnê acaba em janeiro. Tudo isso aconteceu de forma inesperada. A repercussão foi maior do que eu esperava e demanda por trabalho é algo que a gente não controla.
Você pensa em um próximo disco solo? Faria um só com músicas suas ou inéditas?
Meu repertório autoral lanço na minha banda que já existe há 17 anos. O disco dedicado à Nara Leão e o registro do DVD são momentos bem específicos como intérprete. Não tenho ideia sobre um terceiro álbum. Mas sinto que não gosto de sequências tão óbvias assim...
Como foram os shows do disco no exterior? No Japão aparentemente o sucesso foi grande pelo que se vê no DVD
O disco tem sido licenciado para vários países. O Japão é um dos principais mercados pra ele. Agora com o DVD em mãos é que os produtores de fora devem se interessar pelo espetáculo. Por isso tivemos o cuidado de legendá-lo em quatro idiomas.
E por aqui? As plateias não eram só de pessoas que te conheciam do Pato Fu né? Digo isso porque no DVD se ouvem aqueles gritos de "linda" e "maravilhosa", mais comuns em shows de MPB. Pela sua reação fica a impressão de que esse tipo de atitude é novidade pra você.
Uma plateia nova me conheceu melhor agora. Acho que muita gente me conhecia de nome, mas nunca tinha ido a um show ou comprado um disco inteiro com a minha voz. Gosto muito de misturar o público porque o meu gostar de música não é compartimentado. Fico realmente satisfeita em perceber que a variedade do meu repertório alcança também pessoas diferentes.
Como é a vida na estrada em família? A filha de vocês viaja também?
Ela não viaja. Raramente vai com a gente. Quando isso acontece, umas três vezes por ano, é porque temos parentes nas cidades e estamos em mini-temporada em teatros, por exemplo. A vida de turnês e divulgação é muito insalubre. Criança pequena precisa de horários definidos, de escola, de boa alimentação... Na maior parte das vezes não temos isso por conta dos traslados de um lugar a outro.
Como anda o Pato Fu? Já estão com planos de lançar outro disco?
Em setembro a gente se reunirá pra produzir o décimo disco da carreira. Ele deve sair no começo do ano que vem.
A banda aliás foi uma das que abriu mão de uma gravadora e lançar o disco por conta própria. Gostaram da experiência? Pretendem fazer a mesma coisa com o próximo álbum?
Desde 2005. Nós produzimos o álbum com nossos meios e apenas negociamos a distribuição. Pode ser por uma major, pode ser independente. O que importa é que haja um contrato claro, decente e que as pessoas estejam interessadas de verdade na nossa proposta musical pra cada momento. Por isso ainda não sabemos por onde sairá.
Vocês sempre foram das bandas mais interessadas em outras mídias e em usar a net como ferramenta de divulgação. Agora que estamos chegando ao fim da década, que balanço você faz desse período? Arrisca dizer quais serão os discos considerados "clássicos do começo do século" sejam brasileiros ou não?
Sim, fomos das primeiras bandas a usar a internet como forma de nos aproximar mais do público sem intermediários. Não arrisco fazer uma lista de jeito nenhum. A opinião sobre música é das coisas mais subjetivas do mundo.
Vocês também sempre se equilibraram entre o mainstream e a cena independente. Você ainda escuta bastante as novas bandas? Tem alguma que você tenha curtido mais?
Escuto muita coisa nova porque recebo muito material. Tenho gostado mais de novos artistas solo do que em banda. Posso citar o Leo Cavalcanti e a Luisa Maita como alguns dos mais interessantes do momento.
E no geral, o que você anda ouvindo?
Trilhas de peças de teatro infantil, os discos mais recentes do Trash Pour 4, Goldfrapp, Zelia Duncan e Érika Machado – estas últimas produzidas pelo John (Ulhoa, o guitarrista do Pato Fu e marido de Fernanda) que é cada vez mais o meu produtor preferido!






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